Acesso à Pornografia Prejudica Gravemente a Saúde Mental das Crianças, Alertam Especialistas

Em um apelo urgente assinado por figuras feministas de 17 países europeus, publicado no jornal Le Monde no início de setembro, especialistas e ativistas denunciam o impacto devastador do acesso irrestrito à pornografia na saúde mental e na integridade psicológica de crianças e adolescentes. O texto, que ganhou repercussão em debates sobre proteção infantil na União Europeia, defende a implementação obrigatória de verificação de idade em sites pornográficos como medida essencial para blindar os mais vulneráveis de conteúdos frequentemente violentos, misóginos, racistas e até mesmo que incluem abuso sexual infantil.

Intitulado “Access to pornography gravely undermines children’s mental health and psychological integrity” (em tradução livre: “O acesso à pornografia prejudica gravemente a saúde mental e a integridade psicológica das crianças”), o artigo de opinião destaca como a pornografia se tornou a principal – e muitas vezes involuntária – fonte de “educação sexual” para os jovens. “Classificada no topo dos resultados de busca sobre sexualidade, gratuita e acessível desde o primeiro celular de uma criança, a pornografia constitui hoje a fonte primária de ‘educação sexual’ para adolescentes”, escrevem as autoras, citando dados alarmantes de estudos europeus.

Exposição Massiva e Involuntária

De acordo com o texto, na França, 51% dos meninos entre 11 e 12 anos consomem pornografia regularmente. Para os autores, essa exposição não é acidental: para os garotos, ela está enraizada em rituais de socialização virilista, enquanto meninas frequentemente a encontram de forma indesejada. O conteúdo predominante em plataformas populares é chocante: uma análise de 50 vídeos mais visualizados revela que 88% incluem agressão física contra mulheres. Palavras-chave mais usadas remetem a práticas de abuso infantil, violência ou racismo, sexualizando atos que, fora desse contexto, seriam criminosos.

Essa fusão entre sexualidade e violência, argumentam as signatárias, distorce a percepção das relações entre os sexos desde cedo. No Reino Unido, um estudo indica que meninos expostos à pornografia têm 3,3 vezes mais chances de cometer atos de violência sexual. Outro levantamento britânico aponta que 42% desses jovens acreditam que a maioria das meninas gosta de agressões sexuais. Na Espanha, mulheres consumidoras de pornografia enfrentam risco quatro vezes maior de se tornarem vítimas de violência sexual. Uma meta-análise científica de 2016 reforça a correlação entre o consumo desse material e a perpetuação de violências sexistas e sexuais.

Impactos Psicológicos Profundos

O apelo vai além dos números, mergulhando nos efeitos neurológicos e emocionais. A assimilação da mensagem pornográfica ocorre por meio do prazer: a liberação de dopamina associada à masturbação cria tolerância crescente, levando os usuários a buscarem imagens cada vez mais extremas. Durante a adolescência – fase crítica de desenvolvimento cerebral –, essa exposição reforça impulsos enquanto inibe funções reguladoras e empáticas. A pesquisadora Maria Hernandez-Mora Ruiz del Castillo, citada no artigo, descreve o fenômeno como um “verdadeiro estupro psíquico” imposto às crianças.

As autoras criticam o lobby intenso da indústria pornográfica, que resiste a regulamentações como a verificação de idade, alegando violações à liberdade de expressão. No entanto, elas enfatizam que medidas semelhantes já foram adotadas em países como o Reino Unido e a Austrália, com resultados positivos na redução do acesso infantil. “Proteger as crianças não é censura; é uma questão de direitos humanos fundamentais”, afirmam, ecoando convenções internacionais como a de Lancaster House.

Um Chamado para Ação na Europa

O texto, assinado por mais de 50 personalidades de nações como França, Alemanha, Itália, Espanha e Suécia, chega em um momento sensível para a UE. Com o aumento de casos de violência de gênero entre jovens – agravado pela pandemia e pelo uso excessivo de telas –, o apelo pressiona legisladores a adotarem diretivas mais rigorosas. Na França, onde o debate sobre a “lei anti-pornô” ganha força, o governo Macron enfrenta críticas por demora em implementar filtros parentais obrigatórios.

Especialistas em saúde mental consultados por esta reportagem corroboram os alertas. “A pornografia não é inofensiva; ela modela expectativas irreais e normaliza o abuso, afetando a autoestima e as relações futuras das crianças”, diz a psicóloga brasileira Dra. Ana Silva, da Universidade de São Paulo (USP), que estuda impactos digitais na juventude. No Brasil, onde o acesso a conteúdos adultos é facilitado por apps e redes sociais, dados do Ministério da Saúde indicam que 1 em cada 4 adolescentes relata exposição precoce, com picos de ansiedade e depressão associados.

Rumo a um Futuro Mais Seguro?

Enquanto o lobby da indústria bilionária – estimada em US$ 100 bilhões globalmente – se mobiliza contra regulamentações, o apelo europeu inspira movimentos semelhantes em outros continentes. No Brasil, organizações como a Childhood Brasil e o Instituto Alana defendem parcerias com big techs para verificações biométricas ou de documentos. “É hora de priorizar a infância sobre os lucros”, conclui o manifesto do Le Monde.

O debate expõe uma tensão global: entre a liberdade adulta e a proteção infantil. Como as signatárias resumem: “Sem barreiras, a pornografia rouba a inocência e semeia traumas”. Resta saber se governos e plataformas responderão antes que mais gerações paguem o preço.